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Desabafos de uma Morena

Desabafos de uma Morena

14
Jun19

Sobre o discurso de João Miguel Tavares no 10 de Junho

Maria

João Miguel Tavares: O risco de uma geração desencantada, num país onde não temos de ser os melhores, embora sejamos capazes de coisas extraordinárias

 

Ouvi, tornei a ouvir, li na íntegra o discurso de João Miguel Tavares no 10 de junho em Portalegre. Escrevi um post, que guardei, revi, acrescentei, tinha de editar, abarcava tanto e não abarcava tudo... foi isto para mim o discurso, disse tanto não dizendo tudo.

 

Resolvi, como é do meu feitio, começar de novo.

 

Do tanto que foi dito por João Miguel Tavares registei logo as primeiras frases:

 

Eu vivi e cresci a 100 metros do local onde me encontro, ali mesmo, no cimo da Avenida Frei Amador Arrais. Foi nessa casa que habitei até fazer aquilo que a maior parte dos portalegrenses faz após acabar o secundário: deixar a cidade para ir estudar fora, na universidade. Boa parte dos portalegrenses, infelizmente, já não volta a viver aqui. Eu não voltei. Mas aquela será sempre a minha casa. E esta foi, é e será sempre a minha cidade.

 

Há uma inevitabilidade na realidade que é transmitida. Uma inevitabilidade que já não é tão marcante hoje, em que o Interior tem Ensino Superior (mais que não seja na forma de Institutos Politécnicos), mas ainda o é pelo peso diferencial que existe entre uma licenciatura obtida numa Universidade de Lisboa, Porto, Coimbra e uma obtida na UTAD, na UBI, na U Évora etc pese embora o meritório trabalho que desenvolvem estas últimas. 

A inevitabilidade hoje toma outras formas, mas continua a existir quando se quer progredir profissionalmente. Noto com satisfação, no entanto, que, fruto do "encurtar" de distâncias, esta inevitabilidade de ir para Lisboa estudar nem sempre conduz à inevitabilidade de não regressar.

O português do Interior tem transporte próprio, o português do Interior tem de ter transporte próprio. O português do Interior vive no Interior e desloca-se todos os dias, para a sede de concelho, para a zona industrial, para o grande centro urbano (e sim incluo aqui Lisboa) onde trabalha.

O português do Interior comuta; vai de carro até à estação rodoviária ou ferroviária mais próxima (quando os horários destes transportes o permitem) e depois até Lisboa/Porto/Grande Urbe onde entra às 9h; para tal saiu às 6h da manhã de casa, não há transportes públicos a essa hora.

No Portugal Interior quem não tem carta de condução e transporte próprio está limitado profissionalmente, muito limitado mesmo, por isso, excluindo os mais idosos, todas as famílias têm transporte próprio (em regra até mais de um), e com isso deram a volta à inevitabilidade da Grande Urbe.

 

A outra frase que registei foi a mais falada de todas:

 

Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos dêem alguma coisa em que acreditar. Que alimentem um sentimento comum de pertença. Que ofereçam um objectivo claro à comunidade que lideram.

Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. (Além de pagar impostos.)

 

De fato, neste momento, sinto que não conto para grande coisa no futuro do país. Gerações antes da minha lutaram para que eu vivesse em liberdade e em democracia.

Tive o privilégio de ainda ver políticos da velha guarda, que defendiam as suas ideias por acreditarem verdadeiramente que era o melhor para o país, lutavam mas respeitavam-se uns aos outros pois, apesar das diferenças, sabiam que cada um estava a lutar por um país melhor.

Hoje assisto a debates em que falam uns por cima dos outros, sem respeito, com políticos que debitam o discurso que lhes foi incutido nas Universidades de Verão Partidárias onde parece que também lhes tolheram a liberdade de pensar de forma independente, políticos que quando lhe é apresentada questão válida sobre a doutrina que debitam, à falta de argumentos e de capacidade de raciocínio independente alteiam a voz repetindo até à exaustão a "gravação".

Estamos crescentemente a ser um povo com liberdade de expressão e de pensamento governado por políticos a quem estas liberdades foram tolhidas e nem sequer se aperceberam disso.

Políticos que não podem dar-nos um rumo pois não conseguem enxergar o País além do "Nós" partidário.

 

E nesta deixa introduzo a frase que mais ecoou em mim:

 

Há o “eles” – os políticos, as instituições, as várias autoridades, muitas das quais (receio bem) se encontram hoje aqui presentes. E há o “nós” – eu, a minha família, os meus colegas, os meus amigos.

Entre o “nós” e o “eles” há uma distância atlântica, com raríssimas pontes pelo meio.

“Eles” não têm nada a ver connosco. “Nós” não temos nada a ver com eles.

 

Uso amíude o "Eles" e o "Nós", quase exactamente no contexto que o usa João Miguel Tavares no seu discurso.

Mas não esqueço, nem posso esquecer, que, para os políticos eles são o "Nós" e nós todos somos o "Eles". Podem até não ter consciência disso mas esta realidade transparece na forma como assistimos à impunidade e paninhos quentes como são tratados os membros do nosso "Eles". A diferença de tratamento dado entre os dois grupos pela Lei e pelas Instituições dá o testemunho dessa realidade.

Mas, contrariamente ao João Miguel Tavares, sempre reconheci a existência desta dicotomia "Nós"/"Eles", o que se diluiu foi a distância entre eles.

Enquanto no antigamente, fruto da falta de democracia e literacia, os meus avós aceitavam com naturalidade que o mundo dos Governantes nada tinha a ver com eles e até aceitavam a superioridade dos "Doutores", hoje não o aceitamos pois na verdade em democracia todos temos os mesmos direitos, aos olhos da Lei todos somos iguais e os níveis de literacia já não fazem a diferença.

Logo a existência do "Eles" e do "Nós" já não é aceitável, mas quem faz a vida no "Eles" precisa que se mantenha o status quo e, podendo, luta para que nada mude.

 

O discurso teve tanto, mas tanto, para ser escalpelizado. Não o foi. Tenho pena, mas não me surpreende.

 

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